Protocolo de Ressonância Magnética para Avaliação da Hipertensão Portal e Circulação Colateral
A ressonância magnética (RM), associada à angiografia por ressonância magnética (MRA), é uma ferramenta essencial para a avaliação da hipertensão portal, permitindo a visualização da anatomia vascular hepática, fluxo portal, circulação colateral e complicações associadas, como varizes esofágicas e esplenomegalia. Além disso, a RM possibilita a quantificação do fluxo portal e venoso hepático sem o uso de contraste iodado, sendo útil para pacientes com insuficiência renal ou contraindicação ao meio de contraste iodado da TC.
1. Indicações
• Diagnóstico e estadiamento da hipertensão portal.
• Detecção de circulação colateral (varizes esofágicas, gástricas, periumbilicais, esplenorrenais).
• Avaliação da permeabilidade da veia porta e da veia hepática (síndrome de Budd-Chiari).
• Monitoramento pós-TIPS (shunt portossistêmico intra-hepático transjugular).
• Diferenciação entre trombose portal benigna e maligna.
• Estudo da hemodinâmica hepática em pacientes com cirrose, hepatopatia crônica e esquistossomose hepatoesplênica.
2. Posicionamento do Paciente
• Decúbito dorsal, com os braços elevados acima da cabeça para reduzir artefatos de movimento.
• Uso de bobina abdominal de alta resolução.
• Respiração controlada ou aquisição em apneia para minimizar artefatos respiratórios.
• Administração de contraste intravenoso (gadoxetato de gadolínio - Primovist/Eovist ou gadoterato de meglumina) para avaliação vascular.
3. Sequências e Parâmetros Técnicos
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Sequência |
Plano |
Parâmetros Principais |
Finalidade |
|---|---|---|---|
|
T1 SE |
Axial e Coronal |
TR/TE ~600/10 ms |
Avaliação anatômica do fígado e baço |
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T2 FSE com supressão de gordura (FatSat ou STIR) |
Axial e Coronal |
TR/TE ~4000-5000/80-100 ms |
Identificação de edema hepático, ascite e esplenomegalia |
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DWI (Difusão) |
Axial |
b = 0, 800-1000 s/mm² |
Diferenciação entre trombose benigna e maligna da veia porta |
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T1 Dinâmico com Gadolinio (Primovist/Eovist ou Gadoterato) |
Axial |
Fases arterial, portal, equilíbrio e tardia |
Avaliação da perfusão hepática e circulação colateral |
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Fase Hepatobiliar (20 min pós-contraste - Primovist/Eovist) |
Axial |
TR/TE ~600/10 ms |
Estudo da função hepatocitária e retenção do contraste nas vias biliares |
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MRA (Angio-RM 3D TOF, sem contraste) |
Axial e Sagital |
Alta resolução |
Avaliação da permeabilidade da veia porta e fluxo sanguíneo sem necessidade de contraste |
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4D Flow RM (Opcional, quando disponível) |
Axial e Sagital |
Mapeamento do fluxo sanguíneo |
Estudo da hemodinâmica hepática e shunts portossistêmicos |
4. Caracterização da Hipertensão Portal e Circulação Colateral
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Achado |
Sinal na RM |
|---|---|
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Dilatação da veia porta (>13 mm) |
Hipersinal em T2, realce pós-contraste |
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Varizes esofágicas/gástricas |
Estruturas tubulares tortuosas na transição esôfago-gástrica |
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Circulação colateral periumbilical (Cabeça de Medusa) |
Dilatação das veias epigástricas superficiais |
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Shunt esplenorrenal espontâneo |
Comunicação vascular anômala entre veia esplênica e renal |
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Ascite |
Acúmulo de líquido livre na cavidade peritoneal, hiperintenso em T2 |
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Esplenomegalia (>13 cm) |
Aumento do volume do baço, hipersinal em T2 |
5. Achados Patológicos
Hipertensão Portal
• Dilatação da veia porta (>13 mm) com fluxo reduzido ou revertido na MRA.
• Colaterais portossistêmicos (varizes esofágicas, gástricas e periumbilicais).
• Esplenomegalia e ascite associadas.
Trombose da Veia Porta
• Trombose aguda: ausência de fluxo na veia porta na MRA, hipersinal em T2, sem realce pós-contraste.
• Trombose crônica: fibrose vascular, desenvolvimento de circulação colateral.
• Trombose maligna: restrição na difusão (baixo ADC) e realce heterogêneo pós-contraste.
Síndrome de Budd-Chiari
• Obstrução das veias hepáticas com congestão hepática e realce tardio do fígado.
• Diminuição do fluxo venoso hepático na MRA.
• Ascite significativa associada.
Monitoramento pós-TIPS
• Avaliação da patência do shunt portossistêmico na MRA e 4D Flow RM.
• Fluxo portossistêmico anômalo ou sinais de oclusão do TIPS.
• Monitoramento da resposta clínica (redução da hipertensão portal e varizes colaterais).
6. Preparo do Paciente
• Jejum de 4-6 horas, especialmente para exames com gadolínio.
• Preenchimento do questionário de segurança para RM.
• Uso de gadolínio (Primovist/Eovist ou Gadoterato) para avaliação da perfusão hepática e detecção de lesões associadas.
• Instrução para respiração controlada ou aquisição em apneia durante as sequências dinâmicas do contraste.
7. Considerações Adicionais
• DWI e ADC são essenciais para diferenciar trombose benigna e maligna da veia porta.
• MRA sem contraste é útil para pacientes com contraindicação ao gadolínio.
• 4D Flow RM fornece informações sobre o padrão do fluxo sanguíneo e gradientes de pressão na hipertensão portal.
• A fase hepatobiliar com Primovist/Eovist pode ser usada para avaliar a função hepatocitária e excluir colestase associada.
• Comparação com exames prévios (TC, PET-CT, ultrassonografia Doppler) auxilia na progressão da doença e na resposta ao tratamento.